Sexta-feira, 6 de Junho de 2008

Triste país Alegre

 

  

 

Seguindo uma certa lógica até ao limite, todos os portugueses deviam tornar-se obstetras ou professores. Porquê? Porque a experiência que nós temos quando acabamos a escola é nascer e andar na escola.
Porque a partir daí, tudo requer experiência. Emprego? Mínimo 3 anos de experiência na área. Política? Nada feito sem experiência governativa. Ora eu posso ter um pensamento pouco linear mas na minha estranha cabeça, para ter experiência seja no que for é preciso... começar. E isso para mim significa não ter à partida... experiência.
Este mal creio ser ainda uma herança do pré 25 de Abril a que chamo "Síndrome Manuel Alegre".
 
Para uma certa geração - que se admira e indigna porque os jovens estão desligados da política e de "Abril" (as aspas não são "daquelas", é só porque Abril sem aspas é só um mês, por muito que custe a muita gente aceitar, e aí reside o problema) - quem não tenha um passado anti-fascista, que não tenha lutado pela democracia, que não tenha sido, idealmente preso mas perseguido também serve, pela PIDE, não reúne condições para ser um democrata, não pode criticar ninguém, opiniões e actos, que tenha "combatido o fascismo". E nisso ninguém bate Manuel Alegre. Aparentemente ninguém que não tenha tido o seu problemazito com a PIDE está à altura de emitir uma opinião sobre a sua pessoa.
 
A mim esta atitude de superioridade irrita-me e causa-me uma sensação de impotência. Porque em 74 eu só tinha 6 anos e que não tenho sequer memória de ter visto um PIDE ao natural.
 
Chamo-lhe Síndrome Manuel Alegre porque ele fá-lo melhor que ninguém mas há ainda toda uma geração de que se esquece que qualquer portuguesa ou português com menos de, vá lá, 45 anos, não tem Experiência de luta anti-fascista por mera impossibilidade temporal, graças aos que eles fizeram, a Revolução de 25 de Abril de 1974. Só que essa revolução foi feita para nós, geração pós-Revolução possamos não ter que, passados mais de 30 anos, viver obcecados com o fantasma do fascismo. Porque graças a vocês, para nós ele não é um fantasma, pertence aos campos da história e museoleologia. Mas isso não pode fazer de nós cidadãos de segunda categoria. Tal como a falta de experiência não me devia excluir à partida de qualquer oportunidade na vida.
 
Pode não ser correcto dizê-lo mas creio que há uma geração a quem faltou, em 74-75, apoio psicológico para tratamento de stress pós-traumático. Porque enquanto "Abril" for uma obsessão, enquanto não for "passado", enquanto não se puder viver o "pós" sem complexos com o "antigo regime", enquanto ano após ano, a 25/4, em vez de festa houver um funeral, enquanto não for ultrapassado o Síndrome Manuel Alegre, não me parece que esta geração com menos de 45 anos consiga realmente viver "Abril". Talvez historicamente seja preciso passar mais uma geração?
 
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publicado por joao moreira de sá às 05:49
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1 comentário:
De mdsol a 6 de Junho de 2008 às 13:04
A arrogância manifesta-se de muitas formas....E o que (ainda) aborrece mais é deixarem encher de bolor mesmo o que de bom têm. Bahhhhhhhhhhhh
:)


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