Reparem que naquela época havia datas específicas para gastar dinheiro, que apesar dos esforços ainda pouco passavam de picos de consumo nas que chamavam épocas festivas. Devem ser-vos familiares os conceitos ou pelo menos os nomes Aniversário ou Natal.
Claro que estamos a falar de um período anterior ao gasto-diário-mínimo-obrigatório. Foi também por essa altura que o Plano entrou em acção. Repararam que falei ali atrás de dois eventos, Aniversário e Natal. Foram durante muito tempo os dois grandes senão únicos ritos de consumo enquanto comportamento social colectivo. A Intervenção fez-se de duas formas. Pouco a pouco conseguiu-se fazer expandir o Natal a zonas do planeta cuja cultura lhe era alheia no significado. Estamos a falar de áreas como as actuais Chinásia ou os Grandes Territórios Israelo-Iranianos, quem daqui já tenha visitado a Terra com certeza conhece. Ao mesmo tempo começámos a introduzir na Eurorússia focos de consumo já antes testados com sucesso na parte norte da actual Unamérica, acompanhando o processo com técnicas de crescimento de PIS, Percepção de Importância Social para quem não saiba.
Conceitos como o Dia dos Namorados ou Halloween podem ainda não vos ser familiares, mas deviam, porque vocês não estão aqui para ouvir contar histórias, vocês estão aqui para aprender, porque a batalha é continua e o Plano precisa que alunos como vocês estejam devidamente preparados para lhe dar continuidade. Enquanto houver uma pessoa lá na Terra que sinta saudades de um natal do passado o Plano terá sempre um risco de retrocesso, por pequeno que seja. O risco, claro. E alguém me sabe dizer porque é que essa fixação nessa data, nesse evento específico, o Natal, é a última e mais difícil barreira de ultrapassar? Diga? Porque estava ligado a crenças de índole religiosa? Sim, esse era o fundamento mas não o mal intrínseco.
Eu digo-vos o que era, porque vocês não têm como o saber, o mal mais profundo e enraizado eram conceitos como família, convívio. Sei que para vocês é difícil de entender mas notem que eram de tal forma relevantes que até muito tarde sobrepuseram-se ao consumo que era então secundário. A Grande Mudança atribui-se hoje exactamente ao momento em que pela primeira vez, uma primeira vez simbólica em termos históricos naturalmente, o comprar se tornou mais importante do que a festa em si.
Tudo isto vos pode parecer agora um pouco estranho, vago. É natural, estamos e falar de há mais de duzentos anos atrás. Por ora importa que se consciencializem de que passado todo este tempo, ainda há lá em baixo quem use calendários, quem assinale o dia vinte e cinco de dezembro. Todos os anos interceptamos na áudio-vigilância a frase que lutamos por eliminar, que o natal já não é o que era.
João Moreira de Sá